Retirado do livro Silêncio com Deus, de “Um Cartuxo)

Deus não seria a bondade e a sabedoria infinitas se, quando procura e exige a nossa intimidade, nos não facultasse ao mesmo tempo os meios de comunicar com Ele. Estes meios de que podemos estar absolutamente certos e que nos permitem entrar em contacto imediato com Deus, são as virtudes teologais e as graças que elas comportam.

Pela fé, aderimos à verdade da vida que nos é proposta. Pela caridade, esta vida torna-se nossa. Pela esperança, temos a certeza de que, com a ajuda da graça, a havemos de viver cada vez melhor e obteremos a sua posse imutável no céu.

É o núcleo essencial de toda a oração sólida e profunda. Em vez de fazer incidir a nossa atenção sobre tal ou tal assunto, em lugar de filosofar sobre Deus, multiplicando o esforço da inteligência, da vontade e da imaginação, para compor quadros, para representar cenas para nós próprios, podemos chegar a Deus na simplicidade do nosso coração: «Procurai-o na simplicidade do coração» (Sab., I, 1).

É o próprio Cristo que nos convida a fazê-lo: «Sede simples como as pombas» (Mat., X, 1 6). O hmnem é um ser complicado e afigura-se-me que se esforça por complicar-se ainda mais, mesmo nas suas relações com Deus. Deus, pelo contrário, é a simplicidade absoluta. Quanto mais complicados formos tanto mais estaremos afastados de Deus; todavia, na medida em que nos tornarmos simples, poderemos aproximar-nos d’Ele.

Vimos que Deus, nosso Pai, está presente em nós. Uma criança, para conversar com seu pai, vai por acaso utilizar um manual de correspondência ou um código de boas maneiras? Não, a criança fala simplesmente, não procura frases feitas, não recorre a nenhum formalismo. Procedamos da mesma maneira com o nosso Pai celeste. O Senhor disse-no-lo já: «Se vos não tornardes como as crianças, não entrareis no Reino dos Céus» (Mat., XVIII, 3).

Há alguma mãe que se canse de ouvir o filho dizer: «mãezinha, amo-te?». O mesmo acontece com Deus. Porque foi Ele próprio que, entre todos os nomes, escolheu o de Pai: «É o Espírito Santo que grita em nós: Abba, Pater» (Gál., IV, 6). É Ele também que põe na nossa boca as palavras inspiradas da Sagrada Escritura e os textos litúrgicos.

Como há-de ser então a nossa oração? Inteiramente simples. Tão simples quanto possível. Pôr-nos-emos de joelhos e faremos com todo o nosso coração os actos de fé, de esperança e de caridade. Não há método de meditação mais seguro, mais elevado e mais salutar.

MÉTODO DE ORAÇÃO

ATO DE FÉ

Meu Deus, creio que estás aqui presente em mim, no meu pobre nada. Ainda se eu fosse só isso, o nada… Mas ainda por cima te ofendi, me revoltei contra ti. Estou pois abaixo do nada… Os animais não te desonrariam como eu, e todavia dignas-te habitar em mim. Deveria estar abatido, mas estou ainda inchado de orgulho, cheio de amor próprio… Meu Deus, apesar de tudo isto, adoro-te presente em mim. Creio firmemente que estás presente em mim, e, com a ajuda da graça, quero chegar a uma fé tão grande e tão forte que me não possa nunca mais deixar absorver por outra coisa que não sejas tu. Como o cego do Evangelho, direi: Senhor, faz com que eu veja… Faz cair o véu dos meus olhos, cura a minha cegueira, ilumina-me de tal modo que pela luz da tua presença, eu te veja em tudo, e veja tudo em ti…

ATO DE ESPERANÇA

Meu Deus, espero em ti, bondade infinita, que quiseste fazer em mim a tua morada. Mas como posso atrever-me a esperar em ti, eu, o ser mais miserável, mais abjecto e mais ingrato? As minhas palavras deviam ser as de Pedro: Afasta-te de mim, Senhor, que eu sou um homem pecador…

Pois bem: não, meu Deus. Eu sei que tu desceste à terra e que vieste não pelos justos, mas pelos pecadores. É precisamente o título de pecador que eu hei-de alegar; porque eu sou pecador, é que espero em ti.

E não me limito a uma simples esperança; tenho a certeza de que estás, estarás, permanecerás sempre em mim, no sentido em que Paulo o disse: «Se Deus está connosco, quem será contra nós?… Tenho a certeza de que nem a morte nem a vida… nem nenhuma criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus» (Rom., VIII, 3 1, 3 8).

Doravante, meu Deus, sinto-me seguro contigo, não temo nada. O mundo, o inferno, a carne podem revoltar-se contra mim. Tu és o meu Emmanuel, «o Deus connosco», o meu tudo: «meu Deus e todas as coisas».

ATO DE CARIDADE

Como posso dizer que te amo, eu, que tanto te ofendi? Se represento a minha vida por uma linha, devia ser uma linha recta e contínua de amor puro por ti, meu Deus, porque me criaste para te amar… Ora só vejo consagrados ao teu amor alguns pontos raros e espaçados. E mais… os actos mais generosos, os sentimentos mais puros, consumiram-se na sua maior parte na vaidade e na minha própria ostentação. Que ingratidão para contigo que me perseguiste sempre com o teu amor…

Mas, hoje mesmo, meu Deus, eu me entrego e exclamo por meu turno: Senhor, tu venceste… tu morreste de amor por mim… Ao menos viverei de amor por ti; e se não posso dizer que te amo, ao menos, quero amar-te…

CONSELHOS

Estes actos das três virtudes teologais não excluem a manifestação de outros sentimentos da alma para com Deus. Podemos imbuí-los… de tudo o que nos é necessário para adquirir as virtudes e para nos desembaraçar dos nossos defeitos. Em todo o caso, não podemos adquirir o hábito de falar de uma maneira tão séria com Deus, sem que daí resulte um progresso real na vida do espírito.

Se estamos bem dispostos, depois de falarmos da abundância do coração, nada nos impede de passar o tempo de meditação nestes actos; faremos assim uma excelente oração.

Se, pelo contrário, estivermos áridos e frios e, se depois de termos feito os actos de fé, esperança e caridade, nada mais tivermos a dizer, abriremos um livro e servir-nos-emos do texto para alimentar a nossa conversa com Deus.

Para que isto seja uma verdadeira meditação, não se deve ler apressadamente página sobre página; é preciso parar a cada frase, torná-la viva e pessoal, dirigindo-a a Deus e aplicando-a a nós próprios: «Tu, meu Deus?… bEu, tua criatura»…

Vejamos ainda um exemplo. Lê-se: «O Senhor sofreu pelos homens». Interpreta-se imediatamente: «Tu, meu Deus, sofreste por mim… ». Este modo de orientar o nosso pensamento permite-nos fazer considerações, não em abstracto, mas em conversa com o bom Deus: «Como é abrasador o teu amor, meu Deus… Quem és tu, que desceste do céu?… Que vieste fazer à terra?… Porque sofreste?… quanto e por quem?… Tu, meu Deus, tu incarnaste para sofrer… sem medida, por mim… ingrato… e morreste a pedir pelo teu carrasco, a pedir ao teu Pai celeste que me perdoasse… E eu… Eu não posso suportar a menor contrariedade, embora saiba perfeitamente que mereceria sofrer mil vezes mais… ». «Não, doravante nunca mais serei frio e indiferente contigo. Terei continuamente presentes as tuas palavras: «tenho sede». Tu tinhas sede, sede física, é certo, por causa dos tormentos que eu próprio te infligi com os meus pecados. Sede de amor, sobretudo, porque até agora eu não me dediquei a ti, como tu desejavas… A minha resolução de hoje será pois dar-te amor, só amor. Tudo o que hoje fizer, será em união contigo e por teu amor… ».

O PAPEL DA IMAGINAÇÃO

Objectar-se-á que este método afasta excessivamente o papel da imaginação. Queremos de facto reduzir o seu papel ao mínimo essencial. O trabalho da imaginação é uma activídade puramente humana; não é oração. E esta é a primeira razão que nos leva a procurar limitá-la.

Não há dúvida de que, sob a influência da graça, esta actividade inferior é sublimada e orientada para um fim sobrenatural. Resta acrescentar que a imaginação, como toda a faculdade sensitiva, depressa se esgota e se cansa do seu objecto. Construir e manter representações imaginárias é um trabalho fatigante demais para poder prolongar-se de um modo contínuo. Devemos, pois, evitar erigi-la em elemento importante ou essencial da nossa oração, porque esta deve ser simples e constante, como nos diz o Evangelho.

A imaginação não poderia mesmo atingir as realidades sobrenaturais; que só à fé pura são acessíveis. Limita-se a jogar com a sombra das realidades invisíveis a que as virtudes teologais nos fazem aderir substancialmente.

Deduz-se do exposto que pretendemos eliminar da oração todas as imagens? Não, porque é impossível; mas gostaríamos que as imagens fossem utilizadas apenas na medida da sua estrita necessidade e não mais.

Se quisermos, por exemplo, meditar sobre a paixão do Senhor, é em nós mesmos que primeiro o havemos de procurar; dirigir-nos-emas a Ele como presente em nós mesmos, pela sua divindade. A imaginação, com a ajuda de um crucifixo por exemplo, pode ajudar-nos a representar o que Ele sofreu por nós na cruz. Mas não havemos de esquecer que Ele se encontra no nosso coração.

Isto de modo algum há-de diminuir a vivacidade e a força dos nossos sentimentos para com o Senhor. Muito pelo contrário; é a fé pura que dá a estes sentimentos a sua vida e a sua profundidade, porque nos ensina o seguinte: do mesmo modo que o nosso pecado actual atormentou realmente o Senhor na sua paixão, assim os nossos actos de amor o consolaram realmente.

Que encorajamento para uma alma fervorosa saber que pode, agora, pela sua caridade, consolar Cristo agonizante, abandonado por todos no jardim de Getsemani… Nada de imaginativo há nisto; é a sublime realidade da fé.

CONCLUSÃO DA ORAÇÃO

Das nossas meditações e das nossas leituras, havemos de ter o cuidado de tirar sempre a conclusão: Deus é tudo, nós não somos nada. «Meu Deus, tu és o ser infinito, eu sou o nada; tu és a beleza e eu a fealdade e a miséria; tu és a santidade e eu o pecado».

A pouco e pouco, havemos de chegar a imbuir-nos daquele estado de compunção que é o alicerce de toda a vida interior séria. É preciso que compreendamos finalmente que somos totalmente incapazes de fazer o bem, e que o único meio de viver é não fazer nada a não ser por Deus e para Deus.

Portanto, a resolução que havemos de tomar, em cada meditação, será conservar-nos na presença de Deus durante o dia que começa, fazer muitas vezes este acto tão simples: reentrar dentro de nós mesmos e, uma vez lá, saudar Deus por um acto de fé, esperança e caridade. Este método permitir-nos-á fugir constantemente do pecado e progredir com segurança na virtude.

A ORAÇÃO PROLONGADA

Se repetirmos durante o dia os actos essenciais da manhã, desenvolveremos, sem dúvida, em nós o espírito de oração.

As palavras de João tornar-se-ão o farol luminoso da nossa vida: «Deus é amor, e aquele que permanece no amor vive em Deus e Deus nele» (I João, IV, 16). Consequência: realizar-se-á o que o mesmo apóstolo disse: «Aquele que vive em Deus, não peca» (I João, III, 9).

É fácil subtrairmo-nos de vez em quando às preocupações da vida para pensarmos em Deus: «É bom aderir a Deus» (Salmo LXXXI, 28). Posso falar-lhe a cada instante. Nem sequer tenho necessidade de palavras para expressar o meu pensamento: um olhar instantâneo para o interior, um impulso de amor, bastam. Assim, lentamente, hei-de conseguir uma solidão interior tal, que me será possível ouvir a voz de Deus, segundo o que Ele disse dele mesmo: «Conduzi-lo-ei na solidão e falarei ao seu coração» (Os., II, 14).

Aplicar-me-ei a ouvir com uma fidelidade cada vez maior tudo o que Ele quer de mim: «Escutarei o que o Senhor meu Deus diz em mim» (Salmo LXXXIV, 9). Na hora das dificuldades, procurarei o meu refúgio junto d’Ele. N’Ele encontrarei a luz, com Ele partilharei as minhas alegrias… Numa palavra: é Ele que há-de ocupar o primeiro lugar nos meus pensamentos e nos meu actos. A minha vida, que antes era egocêntrica, só n’Ele terá razão de ser.

E farei tudo isto sem violência, sem coerção. A repetição dos actos sobrenaturais predispõe para o enraizamento dos hábitos sobrenaturais. Se pretendo chegar a viver continuamente num ambiente de fé, esperança e caridade, o que tenho a fazer é esforçar-me por multiplicar estes mesmos actos. E, na certeza de que Deus me quer, de que me chama à sua intimidade - «As minhas delícias são estar com os filhos dos homens» (Prov., VIII, 31), não me pouparei a nenhum s acrifício para chegar a esse ponto o mais depressa possível.

OBJECTIVO DA VIDA DE ORAÇÃO

Encontrei o meu ideal. Sei onde quero, onde posso e onde devo chegar. Outrora caminhava sem conhecer o objectivo, e as dificuldades do caminho cansavam-me e desencorajavam-me; agora conheço-o e já nada me fará deter. Não repousarei mais até encontrar Deus no mais íntimo do meu coração. «Encontrei aquele que ama a minha alma, estreitei-o, e não o deixarei mais» (Cânt., III, 4). O amor dar-me-á asas: «O amor é forte como a morte» (Cânt., VIII, 6). Deixei de temer as dificuldades: «Tudo posso naquele que me conforta» (Fil., IV, 13).

Se lançar um olhar sobre a minha vida passada e me esforçar por ser sincero comigo mesmo, devo confessar que, na minha vida espiritual, tem me faltado o ideal, e que esta foi a causa profunda do pouco progresso que nela realizei.

Não tinha compreendido quanto o Senhor deseja as almas e as procura: almas que. se dêem a Ele, para que Ele próprio possa dar-se às almas. O grau de intimidade a que nos convida, atingir-se-á na medida da nossa generosidade em corresponder à graça. Ele não quer pôr restrições ao seu amor e só procura dar-se inteiramente. Tem sede de possuir completamente as almas. Mas as almas têm medo d’Ele por causa das consequências desta intimidade, que exige da parte do homem grandes sacrifícios.

A partir de agora serei franco comigo mesmo. Sei, por um lado, que Deus quer penetrar inteira e definitivamente no meu ser, que me predestinou para ser conforme à imagem de Cristo. Sei também, por outro lado, que Ele se não detém perante a minha indignidade. E quem poderia acreditar em tal favor? «Quem diz que não pecou, é mentiroso» (I João, I, 1 0).

Mais ainda, não é apesar da nossa indignidade que Deus nos procura, é por causa da nossa indignidade que Ele se quer glorificar em nós. Quanto mais grosseira for a matéria, maior glória tirará o artista, se dela fizer uma obra prima. É esta verdade que o Senhor nos faz compreender no Evangelho, nas parábolas do filho pródigo e da ovelha perdida. Há mais alegria no céu pela conversão de um pecador do que pela perseverança de uma multidão de justos.

Se decidi seguir daqui para o futuro este ideal, sou obrigado, em todos os meus actos, a confessar, por um lado, que nada sou e nada posso por mim mesmo; por outro, que Deus é tudo, que tudo pode e tudo quer fazer por mim, para que eu lhe faça a dádiva total do meu ser.

OBSTÁCULOS QUE SÃO MEIOS

O que até aqui considerei como um obstáculo será doravante um meio: tentações, distracções, dificuldades interiores. Até aqui tudo isto me deteve e acobardou; agora, tudo me servirá de plataforma para me erguer até Deus, desembaraçando-me da criatura. Nem verei nelas mais que um convite premente de Deus para me unir mais com Ele por um acto de fé, de amor e de abandono. Até as coisas penosas s e me afigurarão favores, porque me obrigarão a sair de mim mesmo para só viver em Deus.

Se até aqui o interesse e as preocupações dominaram a minha vida, doravante viverei num espírito de confiança e de abandono. Outrora, nada me perturbava tanto como as minhas quedas e fraquezas; desde este momento, gloriar-me-ei nelas: «Prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que o poder de Cristo habite em mim» (II Cor., XII, 9). Servir-me-ei delas para fazer viver Cristo em mim. O processo será sempre o mesmo: consolidando o contacto com Deus, pela fé, esperança e caridade, em detrimento do ser natural. Cristo deve crescer, eu devo desaparecer. «É preciso que Ele cresça e que eu diminua» (Jo, IH, 30). Ele crescerá na medida em que eu.me apagar.

Pouco a pouco passarei a dominar desta maneira as contingências, e todos os meus antigos adversários, no futuro, só servirão para me aproximar mais do ideal. Cada vez porei mais à disposição de Deus as minhas faculdades e todo o meu ser; a sua voz falará em mim cada vez com maior nitidez.

E espero que um dia, mercê de uma graça indizível, se realize a fusão da minha alma em Deus: «A minha alma liquefez-se» (Cânt., V, 6). Não descansarei enquanto não atingir este objectivo, que não mais hei-de perder de vista. Todo o tempo perdido será substituído por um aumento de fervor. Fortificar-se-á a fé, a esperança tornar-se-á mais firme, e a caridade mais ardente.

APLICAÇÃO À VIDA PRÁTICA

Como conseguir prolongar a meditação de modo a continuá-la durante todo o dia?

Antes de cada uma das nossas acções e algumas vezes no decorrer delas, recolher-nos-emos um instante. Assim, por exemplo, pronunciando as palavras «Ó Deus, vem em meu auxílio», no ofício divino, lançaremos um olhar sobre a nossa vida interior, a fim de lá encontrarmos o hóspede divino. Procederemos do mesmo modo a cada doxologia, a cada Gloria Patri… do ofício e do rosário. Renovando este acto, contrairemos o hábito de saudar Deus presente na nossa alma. Chegará o dia em que, de uma vez para sempre, deixaremos de esquecer aquele que trazemos em nós.

O exame de consciência consistirá em projectar calmamente na nossa memória o dia que findou, para nos assegurarmos de que não fomos negligentes e de que não perdemos de vista o Senhor durante muito tempo. Constataremos que caímos precisamente naquelas o casiões em que não estávamos unidos com Deus.

Quando fizermos uma leitura, bastará que, de tempos a tempos, nem que seja durante o intervalo em que viramos as páginas, façamos incidir a nossa atenção sobre o centro da nossa alma, para aí mantermos o contacto com Deus.

Nem mesmo os momentos de repouso, o passeio por exemplo, se hão-de dar por perdidos para a vida interior. Faremos alguns actos para encontrarmos ou conservarmos a união e permanecermos nesta intimidade simples, neste ambiente divino. Procederemos com Deus como com um amigo muito querido; não trocaremos palavras continuamente, mas sentirnos-emos felizes por o sabermos e o sentirmos ao nosso lado. E isso basta.

Se nos encontrarmos em qualquer lugar onde sabemos que se não adora a Deus, adorá-lo-emas nós ainda com maior intensidade.

Enquanto seguimos o trabalho da graça, que nos cumpre favorecer com a nossa melhor boa vontade, esforçar-nos-emos por desenvolver em nós esta vida, recorrendo aos meios humanos que temos à nossa dis posição; pelo exemplo, pela leitura, pelo estudo, faremos tudo por aprofundar a doutrina da Igreja, especialmente tudo o que diz respeito à filiação adoptiva das almas chamada s à vida divina.

E enfim, e acima de tudo, teremos o cuidado de recorrer, com todo o fervor de que somos capazes, e sempre que po ssível, aos sacramentos, os meios por excelência. É, com efeito, através da santa humanidade do Senhor que poderemos atingir a sua Divindade. Ninguém chega ao Pai. senão por meio do Filho incarnado.

Ele purifica-nos de uma maneira misteriosa pela absolvição, e pela sagrada eucaristia alimenta-nos com a sua humanidade, projecta-nos cada vez mais na divindade com a qual devemos continuar a comunicar, mesmo quando as espécies sacramentais deixaram de estar presentes em nós.

A nossa acção de graças também não acabará com o quarto de hora. A nossa oração será a dos peregrinos de Emaús: «Fica connosco, Senhor; (Luc., XXIV, 29). A sagrada comunhão torna-se assim a origem inesgotável da nossa vida interior, e, como prolonga a sua acção durante todo o dia animar-nos-á com um fervor novo.

Ponhamo-nos completamente nas mãos da Virgem Maria, que gera em nós o seu Filho e o fará crescer até à consumação da unidade.